segunda-feira, 28 de maio de 2012

Are you gorgeous?

 

 Beleza Mulheres Homens Sociedade Sociedade Modelos Bonitos Bonitas

Até aos anos 20 o bronzeado era comum apenas nas classes pobres. Jamais uma lady se expunha ao sol. Estar na moda implicava ser-se o mais pálido possível. Por exemplo, no tempo da rainha Elizabeth I de Inglaterra (1533-1603), era usual branquear-se o rosto com compostos de carbonato, hidróxido de chumbo e outros químicos, de modo a tornar as faces de uma palidez extrema - semelhante a porcelana. Todavia, o acumular diário destas substâncias na pele foi responsável por inúmeros problemas de saúde, nomeadamente casos de paralisia muscular.

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No que concerne ao peso ideal - massa do corpo expressa em quilos - ao longo dos tempos as flutuações foram também bastante interessantes e dependeram, obviamente, do estrato social. Se actualmente os modelos do século XVII, pintados por Rubens, quisessem conquistar as passerelles teriam de passar meses e meses de dieta.

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No que ao cabelo diz respeito, há também muito para contar. No século XVIII ninguém se preocupava em mantê-lo cuidado ou sequer limpo. Jamais alguém ousava aparecer em público sem antes colocar a sua bizarra peruca. Este hábito era tão popular e as perucas eram tão grandes e tão sujas, que era comum encontrarem-se ratazanas a viver dentro delas.

Mas, o estereótipo de beleza não reflecte apenas as variações temporais, depende também da localização geográfica. Por exemplo, ainda hoje, na tribo Paduang, no Mianmá, antiga Birmânia, no sudeste da Ásia, a ênfase é dada ao comprimento do pescoço, em detrimento de outras características faciais ou corporais. De acordo com a tradição, por volta dos 3 ou 4 anos de idade as meninas recebem os primeiros anéis para colocar ao pescoço e ano após ano mais anéis são acrescentados. Quando chegam à altura de casar, as raparigas mais belas da tribo são aquelas cujo comprimento do pescoço supera os 25cm.

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No caso dos homens as diferenças também são dignas de registo. Se alguém me propusesse a difícil tarefa de eleger o homem mais bonito da actualidade, vacilaria entre Adam Rodriguez, Anson Mount, Chace Crawford, George Clooney, por serem, simultaneamente, bonitos, atléticos e de um charme...

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Contudo, qualquer um dos supracitados, no século XVIII, poderia, eventualmente, ser considerado como uma aberração da natureza. Neste período, qualquer homem bonito usava peruca, resmas de maquilhagem, litros de perfume e chorar em público era uma prática comum e fundamental para demonstrar o seu cavalheirismo. A este propósito, conta-se que quando o Primeiro-ministro britânico, Lord Spencer Percival, reunia com o Rei George IV para lhe dar as más notícias, ambos se sentavam e choravam compulsivamente.

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Mas ainda hoje se Chace Crawford fosse viver para a tribo Dinka, do Sudão, teria com certeza sérios problemas em arranjar noiva, pois nesta tribo o padrão de beleza ainda se norteia pelo o obsoleto lema - “gordura é formosura”. De acordo com a tradição, anualmente, os homens competem para conquistar o honroso título - “O mais corpulento”. Segundo consta, no final da competição o vencedor fica com a certeza de ser o preferido entre o mulherio, dado que, para elas, gordura é sinónimo de riqueza e poder.

sábado, 19 de maio de 2012

David Fincher

Som e fúria: a trilha de Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011)

 

A primeira parceria entre o diretor David Fincher e a dupla Trent Reznor e Atticus Ross rendeu o Oscar de melhor trilha sonora para "A Rede Social" (2010). Descoberta a fórmula, eles retornam com o tenso thriller baseado na primeira parte da trilogia do escritor sueco Steig Larsson. Intensa e precisa, é difícil contemplar, da primeira vez, todos os elementos que compõem este emaranhado caótico que aumenta a tensão a cada nova cena.

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Trent Reznor e Atticus Ross no estúdio.

Enquanto Fincher se responsabilizava pela construção do braço investigativo da história, tema assumido com muita competência como já visto em Seven (1995) e Zodíaco (2007), Reznor e Ross buscavam referências sobre a montagem de uma trilha sem o uso de orquestra. Uma grande oportunidade de mostrar os recursos do som digital. O processo de criação da trilha passou por diversas revisões, testadas próximo da conclusão da produção, quando as cenas já estavam prontas para o filme. Isto ajudou a integrar iluminação, direção de arte e a performance dos atores na escolha de cada detalhe sonoro.

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Rooney Mara como Lisbeth Salander.

Toda composição deve seguir um caminho para contar a história. No caso de Os Homens que não Amavam Mulheres (ou, na versão de Portugal, "Os homens que odiavam mulheres"), Lisbeth Salander (interpretada por Rooney Mara) foi escolhida por Fincher para ser a sinfonia ambulante da trama. Sua presença na tela é o ápice da tensão. Ela é exatamente como a definem no filme: diferente em todos os sentidos. Lisbeth é perseguida por esta sonoridade toda a história. O espectador vibra por ela e sente sua dor, e isto fica maior com os sons que transmitem mais ainda, em harmonia, sua vida em meio ao caos.

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Cartaz do filme "Os Homens que não Amavam as Mulheres".

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Rooney Mara como Lisbeth Salander.

Fincher é bastante detalhista, e espera este mesmo nível de sua equipe. Ele concedeu total liberdade para que a dupla desenvolvesse a trilha. Sua única exigência foi que a dupla fizesse uma versão pesada da música Immigrant Song, do Led Zeppelin, com a voz de Karen O (vocalista da banda indie Yeah Yeah Yeahs). Reznor disse que é fácil “ferrar tudo” quando se mexe em uma música completa e famosa como Immigrant Song. Apesar do receio, eles confiaram na visão de Fincher, criando uma versão forte e energética para usar no trailer e na furiosa sequência de abertura (uma prévia eletrizante de uma história idem).

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David Fincher e Rooney Mara nas gravações.

O frio gélido da Suécia é praticamente um personagem presente ao longo de toda a história. A própria equipe de produção sentiu na pele o clima incrivelmente frio de certos períodos do ano em que raramente se vê a luz do sol. Uma referência para o frio, encontrada por Reznor, Ross e Fincher, foi Tubular Bells. A intenção de Reznor e Ross era descobrir como transmitir o som do gelo, algo tão presente naquela paisagem. A referência encontrada foi este álbum de 1973 do compositor inglês Mike Oldfield. Os sinos de Oldfield (em versão tratada pela dupla) resgatam os sussurros do passado, os segredos enterrados sob a neve. Eles conseguiram captar estes elementos e traduziram em som a atmosfera subversiva e ameaçadora. A trilha não vai apenas completar o ambiente: ela é o próprio ambiente.

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Daniel Craig como Mikael Blonkvist.

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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Fragmento de Ausências...(In Releitura)

Fragmento de Ausências...(In Releitura)
Nos lençóis inertes vibra a dor
De sentimentos silenciosos.
Ao som do piano, ouço tua voz
E uma lágrima cai chamando a solidão.
É como se cada nota inspirasse
Em mim uma nostalgia, uma saudade.
Ou um passado distante...
Faço dos meus toques
Saudade de nossos corpos.
Das palavras gravadas na pele
Ecos indeléveis do nosso desejo.
Beijo-te neste lamento,
Onde as palavras saem
À procura do significado
Das loucuras de amor
Tatuadas no meu peito
Intimamente impregnadas
No meu corpo.
__________Vestall Lilith

segunda-feira, 7 de maio de 2012

domingo, 6 de maio de 2012

Veneza

Veneza: uma cidade criada por quem a vê

 

Veneza é tema e cenário para narrativas e mitos que marcaram a história. Mais do que qualquer outra, ela foi recriada, ao longo dos séculos, pelos olhares de quem a pintou, escreveu, fotografou.

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© Canaletto, "O Grande Canal e a Igreja da Saúde", óleo s/ tela (1730), Museu das Belas Artes de Houston.

Se não “a mais...”, Veneza é talvez “uma das mais” literárias e representadas cidades da Europa. É, por certo, impossível listar a fortuna literária, artística e histórica cujo pano de fundo é estampado por esta cidade, sempre referida pelos seus canais onde navegam, além de suas célebres gôndolas, mistérios e mitos populares.

Desde o século XV e XVI, a “Sereníssima”, como era conhecida a atual cidade de Veneza, antes uma República pacífica, tinha ares de “recinto de férias e descanso”. As águas que a recortam e perpassam são entendidas como verdadeiros atores de influência em sua cultura, hábitos cotidianos e, inclusive, produção artística. Veneza teve uma produção artística rival da de outra grande República italiana, Florença. Os florentinos defendiam o primado do desenho; já os venezianos contrapunham a supremacia da cor. Há quem diga que tudo isso se deveu a influência do contato direto e cotidiano com as águas dos canais e do mar - que garantiu, por sinal, a soberania econômica desta cidade durante tanto tempo, se comparada às outras províncias da Península Itálica naquela altura.
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Jessica e Shylock, personagens de "O mercador de Veneza", num quadro de Maurycy Gottlieb

O século XVIII, dando agora um salto na História, nos legou a obra de Canaletto, pintor rapidamente recordado pelos delicados e cuidadosos panoramas venezianos. O século XIX, por seu lado, nos deu uma visão duplicada de Veneza: de um lado a cidade surge cercada de mistérios, de histórias assombrosas de afogamentos, de crimes, mas por outro de amores trágicos, de sofrimentos e até mesmo, por vezes, de decadência, visão essa que, de alguma maneira vai ecoar no século seguinte, nas palavras de Sartre e Mann. Basta lembrarmos que, séculos antes, em “O Mercador de Veneza” (1596-1598), de Shakespeare, o drama e a decadência já eram a atmosfera predominante, embora a peça seja considerada uma obra-prima da comédia. Do mesmo autor, em “Otelo, o Mouro de Veneza” (c. 1603) são a inveja e a ruína humana que encontram os seus lugares. Mais tarde, no século XIX, nasceu a Bienal de Veneza (1895), hoje uma das exposições de arte mais importantes do mundo.

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Tintoretto, "Triunfo de Veneza" , óleo s/ tela (1584), Palácio Ducal de Veneza (detalhe).

A alvorada do século XX mostra-nos conscientemente Veneza segundo todo o peso das histórias nas quais a cidade foi assunto, tema ou cenário. Desde Thomas Mann, no início do século, com a "Morte em Veneza", a Sartre, que dedicou à cidade um conjunto de ensaios, entre os quais “O Sequestrado de Veneza”, sobre Tintoretto, pintor que nasceu e sempre trabalhou em Veneza. É deste livro o primeiro dos trechos literários selecionados que seguem.

***

“...em Veneza nada é simples. Pois não é uma cidade, não: é um arquipélago . Como poderíamos esquecer? De sua ilha, você olha a ilha da frente com inveja: ali, há... o quê? Uma solidão, uma pureza, um silêncio que não há, você juraria, do lado de cá. A verdadeira Veneza, onde quer que você esteja, está sempre em outra parte. Para mim, ao menos, é assim. Normalmente, contento-me com o que tenho mas, em Veneza, sou presa de uma espécie de loucura invejosa; se não me contivesse, estaria o tempo todo nas pontes ou nas gôndolas, procurando desvairadamente a Veneza secreta da outra borda. Naturalmente, assim que a abordo, tudo desvanece; me volto: o mistério tranquilo formou-se novamente do outro lado. Há muito me resignei: Veneza está lá onde não estou”.

SARTRE, Jean Paul. Veneza de minha janela. In.: O sequestrado de Veneza. – São Paulo: Cosac Naify, 2005.

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Fotograma do filme de Visconti "Morte em Veneza".

“Finalmente ele o revia, o mais incrível desembarcadouro, aquela deslumbrante, fantástica composição arquitetônica que a República oferecia ao olhar atônito e cheio de veneração dos navegantes que dela se aproximavam – imponência etérea do Palácio, a Ponte dos Suspiros, as colunas à beira d’água com leão e o santo padroeiro, o perfil da fabulosa catedral sobressaindo suntuoso, o portal e o gigantesco relógio, que se deixavam entrever – e, enquanto o contemplava, Auschenbach ponderou que chegar a Veneza de trem, vindo por terra, era o mesmo que entrar num palácio pela porta dos fundos, e que jamais alguém deveria aproximar-se da mais incrível de todas as cidades a não ser de navio, atravessando o mar, como o fizera agora”.

MANN, Thomas. Morte em Veneza. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

“De novo, na imaginação eu te contemplo! Mais uma vez teu vulto se ergueu diante de mim... Não, não como te encontras, no frio vale, na sombra!, mas como deverias estar, dissipando uma vida de sublime meditação naquela cidade de sombrias visões, tua própria Veneza, que é um Eliseu do mar querido das estrelas, onde as amplas janelas dos palácios paladinos contemplam, com profunda e amarga reflexão, os segredos de suas águas silenciosas”.

POE, Edgar Allan. O Visionário, várias edições livres na web.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Momentos

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Momentos

De momentos inspirados

que para outros não passam

de momentos bem pensados

eu diria bem cunhados...

que ninguém percebe

momentos

com sabor artificial

Amor não é só carnal

os olhos comem sôfregos

insanos...e não procuram

a beleza de uma estrela

de Platão como ideal

Já tudo é banal

dos que se tocam sem Amar

corpos-cavernas sem ternura

não são amor

são somatório bestial...

retirar dali para colocar ali

uns montes...tão ...montes!

uma praia... tão praia!

uma multidão...tão...sem nada...

By Jorge Pereira

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Estrelas de vigia

 

Estrelas de vigia

Sendo a noite eo dia
Cada estrela de vigia
Silêncio rumoroso
Sangrento sol empoleirado
Bebendo a luz do nosso amor
Tempo velho / Escuro
Deixado no lago da insatisfação´
Enquanto cansado
Sob a insónia do desprazer
O tempo que tempo não foi
Não deixou de ser tempo
Sendo a noite e o dia
O rio
E as estelas de vigia

by Jorge Pereira

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Lao Tsé

 

 

Cierra tus ojos y verás claramente.
Cesa de escuchar y oirás la verdad.
Permanece en silencio y tu corazón cantará.
No anheles ningún contacto y encontrarás la unión.
Permanece quieto y te mecerá la marea del Universo.
Relájate y no necesitarás ninguna fuerza, ni la energía de los demás.
Sé paciente y alcanzarás todas las cosas.
Sé humilde y permanecerás entero.
Lao Tsé

Mulher!

 

2 -  Meu quadro

Naiff by Jorge Pereira

 

 

Mulher!

 

Na tela pintada por um pintor solitário

Um rabisco de beleza do teu olhar

Que me fixa e lentamente me hipnotiza

Uma flor colhida do Éden.

A tua delicada e macia pele

Tocada pelos Deuses latinos.

Os teus lábios juntos aos meus;

O encontro de dois Mundos distintos,

Dois sonhos que se cruzam e se unem

Dois corpos que na intimidade se formam num.

Dentro desse sonho abstracto e irreal

Uma imagem de uma Deusa bela como Vénus;

Preenche o altar vazio do meu coração

E enche de alegria o universo dos prazeres,

E as nossas mãos se cruzam neste ritual

Secreto e silencioso à sombra da luz da lua!

Uma palavra que nunca é pronunciada

Olhares interligados que se devoram;

Um perfume que queima a mais cruel das almas,

Uma cama que ficou por arrumar.

Perto de ti, tudo é irreal... Imaginário;

Uma carícia que me queima a pele;

Em odores exóticos e românticos.

 

by Jorge Pereira

Mulher!

Mulher!

 

Na tela pintada por um pintor solitário

Um rabisco de beleza do teu olhar

Que me fixa e lentamente me hipnotiza

Uma flor colhida do Éden.

A tua delicada e macia pele

Tocada pelos Deuses latinos.

Os teus lábios juntos aos meus;

O encontro de dois Mundos distintos,

Dois sonhos que se cruzam e se unem

Dois corpos que na intimidade se formam num.

Dentro desse sonho abstracto e irreal

Uma imagem de uma Deusa bela como Vénus;

Preenche o altar vazio do meu coração

E enche de alegria o universo dos prazeres,

E as nossas mãos se cruzam neste ritual

Secreto e silencioso à sombra da luz da lua!

Uma palavra que nunca é pronunciada

Olhares interligados que se devoram;

Um perfume que queima a mais cruel das almas,

Uma cama que ficou por arrumar.

Perto de ti, tudo é irreal... Imaginário;

Uma carícia que me queima a pele;

Em odores exóticos e românticos.

 

by Jorge Pereira

terça-feira, 1 de maio de 2012

Mulheres que amaram animais

 

Leda teve um cisne; Pasífae, o touro branco de Poseidon. A mitologia grega tem alguns casos de mulheres em aventuras sexuais com animais. Já homens com animais, não consigo lembrar-me de nenhum.

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"Leda e o cisne", a partir dum quadro de Miguel Ângelo.

São sem dúvida casos diferentes: afinal, Leda foi enganada por um deus disfarçado de cisne (devia sentir-se honrada com a visita, imagino), enquanto Pasífae desejou voluntariamente unir-se a um touro. Isto de voluntário não é bem assim. Pasífae foi a vítima escolhida pelo deus Poseidon, que queria vingar-se de Minos, o marido de Pasífae, por este o ter desrespeitado. Poseidon enviou então um magnífico touro branco como oferta a Minos, e com a ajuda de Afrodite fez com que Pasífae se apaixonasse pelo animal. A rainha pediu auxílio a Dédalo, o engenhoso Dédalo que mais tarde construiu o labirinto. O inventor criou uma vaca de madeira dentro da qual Pasífae se escondeu para seduzir o touro e unir-se sexualmente a ele. A história não teve um final feliz: desta união, nasceu o Minotauro, o monstro devorador de homens.

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Pablo Picasso, "Pasifae".

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André Masson, "Pasifae".

Leda é um outro caso: o da mulher desejada que acaba seduzida (como tantas outras) por Zeus. O pai dos deuses assume a forma dum cisne, e seduz e viola Leda numa noite em que esta dorme também com o marido, o rei Tíndaro. Desta dupla cópula nasceram os gémeos Castor e Pólux, e as também irmãs Helena (a de Tróia) e Clitemnestra. O tema de Leda e o Cisne teve grande sucesso entre os artistas do Renascimento, na sua exploração dos temas da antiguidade clássica. Afinal, permitia-lhes pintar aquilo que nunca poderiam representar entre dois seres humanos: sexo explícito.

Também Pasífae teve sucesso artístico, mas - talvez por a maior parte da arte que nos chegou ter sido feita por homens? - é a imagem da submissa Leda que predomina. Os homens sempre gostaram de ver mulheres a fazer coisas ousadas, sexualmente falando, e Leda encaixa perfeitamente nestas fantasias. Quanto a Pasífae, era o retrato duma mulher sem moral, que no fundo praticava o bestialismo. Como se isso não bastasse, era irmã de Circe e como esta tinha poderes de feitiçaria. Nada de bom se poderia esperar de uma mulher assim: uma mulher que dorme com quem quer, animais incluídos, é a origem dos mais terríveis males e monstruosidades.

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Fresco Casa de Vettii, Pompeia: Pasífae e Dédalo com a vaca de madeira

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Correggio, "Leda com o Cisne"

Outras culturas têm as suas próprias lendas e prescrições sobre o bestialismo e em várias religiões os deuses mascaram-se de animais para se relacionarem, sexualmente ou não, com os humanos. Seja qual for a moralidade destas histórias da mitologia grega, a verdade é que são terreno fértil para poetas e pintores. Gosto particularmente, no caso de Leda, do quadro de Correggio e de um outro feito a partir de Miguel Ângelo. E pessoalmente subscrevo as palavras do romeno Marin Sorescu, cujo poema se transcreve abaixo: Grande puta,/ esta Leda / Por isso é que o mundo continua/ Tão bonito.

Aqui ficam alguns poemas sobre Leda:

Leda, de Marin Sorescu

Leda passa sorrindo
Por entre as coisas
E vai para a cama
Com todas elas.

O muro fez-lhe um filho
Da hera,
O sol fez-lhe nascer
Um girassol.

Ela fez amor às claras
Com todos os bois,
À cabeça o boi Apis,
Mas, diabos a levem,
Nem sequer se nota.

Grande puta,
Esta Leda,
Por isso é que o mundo continua
Tão bonito.

Leda e o Cisne, de W.B. Yeats (tradução de Paulo Vizioli)

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinente
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.

Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente.

Leda, de Ruben Dario

El cisne en la sombra parece de nieve;
su pico es de ámbar, del alba al trasluz;
el suave crepúsculo que pasa tan breve
las cándidas alas sonrosa de luz.

Y luego en las ondas del lago azulado,
después que la aurora perdió su arrebol,
las alas tendidas y el cuello enarcado,
el cisne es de plata bañado de sol.

Tal es, cuando esponja las plumas de seda,
olímpico pájaro herido de amor,
y viola en las linfas sonoras a Leda,
buscando su pico los labios en flor.

Suspira la bella desnuda y vencida,
y en tanto que al aire sus quejas se van,
del fondo verdoso de fronda tupida
chispean turbados los ojos de Pan.

De Pasifae, a terminar, um poema em inglesa de A.D. Hope pode ser lido neste site.

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Baixo-relevo de Leda e o Cisne, autor desconhecido.

05_leda-y-dali.jpg
Leda, por Dali

06_Leda_mosaic_crop.jpg
Leda e o cisne num mosaico cretense

08_Cezanne_Leda-with-Swan.jpg
Paul Cézanne, Leda e o Cisne

09_matisse122.jpg
Matisse, Leda e o Cisne

Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2011/11/mulheres_que_amaram_animais.html#ixzz1tf5ZSxLz

publicado em artes e ideias por tajana | 6 comentários

Leda teve um cisne; Pasífae, o touro branco de Poseidon. A mitologia grega tem alguns casos de mulheres em aventuras sexuais com animais. Já homens com animais, não consigo lembrar-me de nenhum.

00_leda_aftermichelangelo_AA.jpg
"Leda e o cisne", a partir dum quadro de Miguel Ângelo.

São sem dúvida casos diferentes: afinal, Leda foi enganada por um deus disfarçado de cisne (devia sentir-se honrada com a visita, imagino), enquanto Pasífae desejou voluntariamente unir-se a um touro. Isto de voluntário não é bem assim. Pasífae foi a vítima escolhida pelo deus Poseidon, que queria vingar-se de Minos, o marido de Pasífae, por este o ter desrespeitado. Poseidon enviou então um magnífico touro branco como oferta a Minos, e com a ajuda de Afrodite fez com que Pasífae se apaixonasse pelo animal. A rainha pediu auxílio a Dédalo, o engenhoso Dédalo que mais tarde construiu o labirinto. O inventor criou uma vaca de madeira dentro da qual Pasífae se escondeu para seduzir o touro e unir-se sexualmente a ele. A história não teve um final feliz: desta união, nasceu o Minotauro, o monstro devorador de homens.

02_PicassoPasiphae.jpg
Pablo Picasso, "Pasifae".

03_Andre_Masson_69.jpg
André Masson, "Pasifae".

Leda é um outro caso: o da mulher desejada que acaba seduzida (como tantas outras) por Zeus. O pai dos deuses assume a forma dum cisne, e seduz e viola Leda numa noite em que esta dorme também com o marido, o rei Tíndaro. Desta dupla cópula nasceram os gémeos Castor e Pólux, e as também irmãs Helena (a de Tróia) e Clitemnestra. O tema de Leda e o Cisne teve grande sucesso entre os artistas do Renascimento, na sua exploração dos temas da antiguidade clássica. Afinal, permitia-lhes pintar aquilo que nunca poderiam representar entre dois seres humanos: sexo explícito.

Também Pasífae teve sucesso artístico, mas - talvez por a maior parte da arte que nos chegou ter sido feita por homens? - é a imagem da submissa Leda que predomina. Os homens sempre gostaram de ver mulheres a fazer coisas ousadas, sexualmente falando, e Leda encaixa perfeitamente nestas fantasias. Quanto a Pasífae, era o retrato duma mulher sem moral, que no fundo praticava o bestialismo. Como se isso não bastasse, era irmã de Circe e como esta tinha poderes de feitiçaria. Nada de bom se poderia esperar de uma mulher assim: uma mulher que dorme com quem quer, animais incluídos, é a origem dos mais terríveis males e monstruosidades.

01_Pompei_-_Casa_dei_Vettii_-_Pasiphae.jpg
Fresco Casa de Vettii, Pompeia: Pasífae e Dédalo com a vaca de madeira

07_CORREGGIO-Leda-With-The-Swan.jpg
Correggio, "Leda com o Cisne"

Outras culturas têm as suas próprias lendas e prescrições sobre o bestialismo e em várias religiões os deuses mascaram-se de animais para se relacionarem, sexualmente ou não, com os humanos. Seja qual for a moralidade destas histórias da mitologia grega, a verdade é que são terreno fértil para poetas e pintores. Gosto particularmente, no caso de Leda, do quadro de Correggio e de um outro feito a partir de Miguel Ângelo. E pessoalmente subscrevo as palavras do romeno Marin Sorescu, cujo poema se transcreve abaixo: Grande puta,/ esta Leda / Por isso é que o mundo continua/ Tão bonito.

Aqui ficam alguns poemas sobre Leda:

Leda, de Marin Sorescu

Leda passa sorrindo
Por entre as coisas
E vai para a cama
Com todas elas.

O muro fez-lhe um filho
Da hera,
O sol fez-lhe nascer
Um girassol.

Ela fez amor às claras
Com todos os bois,
À cabeça o boi Apis,
Mas, diabos a levem,
Nem sequer se nota.

Grande puta,
Esta Leda,
Por isso é que o mundo continua
Tão bonito.

Leda e o Cisne, de W.B. Yeats (tradução de Paulo Vizioli)

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinente
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.

Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente.

Leda, de Ruben Dario

El cisne en la sombra parece de nieve;
su pico es de ámbar, del alba al trasluz;
el suave crepúsculo que pasa tan breve
las cándidas alas sonrosa de luz.

Y luego en las ondas del lago azulado,
después que la aurora perdió su arrebol,
las alas tendidas y el cuello enarcado,
el cisne es de plata bañado de sol.

Tal es, cuando esponja las plumas de seda,
olímpico pájaro herido de amor,
y viola en las linfas sonoras a Leda,
buscando su pico los labios en flor.

Suspira la bella desnuda y vencida,
y en tanto que al aire sus quejas se van,
del fondo verdoso de fronda tupida
chispean turbados los ojos de Pan.

De Pasifae, a terminar, um poema em inglesa de A.D. Hope pode ser lido neste site.

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Baixo-relevo de Leda e o Cisne, autor desconhecido.

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Leda, por Dali

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Leda e o cisne num mosaico cretense

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Paul Cézanne, Leda e o Cisne

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Matisse, Leda e o Cisne